Durante quase três décadas, os fãs de videogames viveram um pesadelo recorrente. Sempre que um estúdio de Hollywood anunciava a adaptação de uma grande franquia dos consoles para as telas, o resultado era quase sempre catastrófico. Desde o bizarro Super Mario Bros. de 1993, passando por Street Fighter (1994) e Assassin’s Creed (2016), o histórico era de roteiros fracos, personagens descaracterizados e bilheterias decepcionantes. A indústria chegou a cunhar um termo para isso: a “maldição das adaptações de games”.
No entanto, o cenário virou de ponta-cabeça. Com o estrondoso sucesso financeiro e de crítica de obras como The Last of Us (HBO), Super Mario Bros. O Filme (Illumination/Nintendo) e a recente série Fallout (Prime Video), a maldição dos Videogames foi oficialmente quebrada.
Abaixo, o Visão Nerd analisa o que finalmente mudou na mentalidade dos executivos de cinema e TV para que essa era de ouro começasse.
1. A Inclusão dos Criadores Originais (O Fator Miyamoto e Druckmann)
O maior erro de Hollywood no passado era comprar os direitos de um jogo, afastar os desenvolvedores originais e entregar o roteiro na mão de diretores que sequer jogavam videogame. Eles acreditavam que a linguagem do cinema era superior e precisava “consertar” a história do jogo.
O jogo virou quando as empresas de games passaram a exigir controle criativo. A animação do Super Mario Bros. (que faturou mais de 1,3 bilhão de dólares) teve Shigeru Miyamoto, o criador do personagem, tomando decisões lado a lado com os produtores da Illumination. Em The Last of Us, a HBO fez o impensável até poucos anos atrás: colocou Neil Druckmann, o diretor e escritor do jogo original, como co-showrunner e roteirista da série junto com Craig Mazin (de Chernobyl). O resultado? Fidelidade absoluta e prêmios Emmy.
2. Expansão do Cânone vs. Reescrita da História – Vídeogames
Outra lição crucial aprendida pela indústria do entretenimento foi entender quando recontar a mesma história e quando expandir o universo.
No caso de jogos com narrativas lineares brilhantes (como The Last of Us), a adaptação seguiu a jornada de Joel e Ellie quase à risca, apenas aprofundando o passado de certos personagens. Já no caso de Fallout, a Amazon e o produtor Todd Howard (da Bethesda) entenderam que seria um erro tentar adaptar a história do protagonista de um dos jogos, pois cada jogador cria seu próprio personagem. A solução magistral foi criar uma história 100% inédita (com a moradora do Refúgio 33, Lucy), mas que é totalmente oficial e dá continuidade à linha do tempo dos jogos.
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3. O Respeito Sagrado Pelo Fã (A Lição do Sonic)
A virada de chave mental de Hollywood talvez tenha sido consolidada pelo ouriço azul da Sega. Quando o primeiro trailer de Sonic: O Filme saiu em 2019, o design realista e assustador do personagem gerou uma revolta global na internet.
No passado, os estúdios ignorariam as críticas e lançariam o filme mesmo assim. A Paramount, no entanto, tomou uma atitude drástica: adiou a estreia, gastou milhões de dólares extras para refazer totalmente o design do Sonic para que ficasse idêntico ao do videogame, e foi recompensada com franquia bilionária que já gerou três filmes e spin-offs. Os estúdios aprenderam que o fã não é um consumidor passivo; ele é o maior divulgador da obra. Se o núcleo de fãs rejeita o material, o fracasso comercial é certo.
A “maldição” não foi quebrada por mágica, mas por uma dose atrasada de humildade. O mercado audiovisual finalmente compreendeu que os videogames já possuíam roteiros tão densos e complexos quanto a própria literatura. Bastava apenas traduzi-los com respeito.
